quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Alienígenas do Passado



A série Alienígenas do Passado (Ancient Aliens), apresentada pelo Canal History com estréia em 20 de abril de 2010, tendo como produtora Prometheus Entertainment, é uma série que mostra hipóteses e ‘’evidências’’ do contato entre humanos com seres de outros planetas. A série baseia-se claramente no escritor suíço Erick Von Daniken, famoso mundialmente por seus livros, tendo como sua obra mais importante Eram os deuses astronautas (Chariots of the Gods? 1968), best seller que causou impacto em todo os Estados Unidos, Europa, Americana Latina.
 A idéia principal de Daniken, apoiada por grupos de ufólogos e arqueólogos como Geroge A. Tesaukalos, é que alienígenas estiveram visitando-nos no passado, ensinando técnicas e instruindo o homem a construir as mais famosas e misteriosas arquiteturas, como as pirâmides do Egito, as linhas de Nazca, Puma Punk, o sarcófago de Palenquen, as estátuas da ilha de Páscoa.

Desde sua estreia, a série tem impactado muito seu público por mostrar engenhosamente as ‘’evidências’’ da manipulação de seres planetários nas maiores obras da humanidade. No entanto, analisando-a, vemos que o que é mostrado na série parece muitas vezes ideias e provas bem retorcidas da realidade.  Para tornar evidente suas contradições, tomamos como exemplo as principais teorias de Daniken à análise;

AS LINHAS DE NAZCA
Em sua obra mais famosa, Daniken cita que as linhas de Nazca, situadas no deserto de Nazca no Peru, foram construídas seguindo orientações de seres de outros planetas[1] que serviriam como aeroportos para naves, por serem linhas retas estendidas por muitos quilômetros tendo um começo e um fim[2]. Outra tese sustentada por Daniken, é de que  as montanhas aonde as linhas de Nazca forma construídas, estão como se ‘’cortadas’’ de forma plana por uma máquina, algo até então impossível à época.  Na verdade, o que ele refere-se, nada mais é do que um simples platô: Planaltos e mesas são naturalmente planas na parte superior,ocorrendo em todo mundo e muito conhecida por todos os geólogos.
Já sobre as famosas linhas, percebe-se que Nazca não possui somente linhas retas, há também diversas imagens de animais, como macacos, aranhas, peixes, onças, ihamas, lagartos e cães. Contrariamente ao que a série afirma, a forma como foram feitos os desenhos e linhas é de na verdade muito simples. Os antigos Nazcas, como mostrado pelo arqueólogos atuais, colocavam para o lado os cascalhos marrons avermelhados cobertos de óxido de ferro, que cobrem a superfície do deserto de Nazca, para fora do caminho. Quando esse cascalho é retirado, a camada de baixo é exposta e sendo muito mais leve, cria o contraste das linhas de Nazca. Desta forma, no deserto de Nazca qualquer pessoa poderia criar as linhas simplesmente arrastando os dedos na superfície do solo, e provavelmente seu desenho ficaria lá por séculos[3], já que o deserto de Nazca é um dos lugares mais secos do mundo.
Mas se essas linhas não são aeroportos de espaço naves, o que poderiam ser?
            O povo Nazca adorava a vários deuses, em sua maioria representados por animais,alguns chamados como a baleia assassina e o gato místico, cuja crença sustentava que estes controlavam a natureza e por consequência seu cotidiano, desta forma, muitas pessoas foram sacrificadas aos deuses, um ritual comum entre o povo Nazca. Muitos desses animais, representados nas linhas de Nazca, encontram-se também em artes como a cerâmica Nazca.

O povo Nazca não era considerado um das mais avançadas e complexas culturas, por tal não se esperaria de um povo que teria aeroportos para seres de outros planetas. Assim como a mitologia Nazca não narra nenhum desses fatos.

Outro fato marcante eram as chamadas peregrinações, que estendiam-se por quilômetros no deserto para festividades religiosas, um desses lugares é o Cahuachi, ponto muito próximo das linhas. Na cultura Nazca todo o povo deveria caminhar junto por esses desenhos, formando então os outros, com rituais para apaziguamento dos deuses.[4]

AS PIRÂMIDES DO EGITO
As famosas pirâmides do Egito, nunca foram objeto de enigmas e mistérios,até o século XVII com a chegada principalmente do ocultismo e de seitas como os Iluminatti e Rosa-Cruz[5], desde então as pirâmides ficaram em volta de mistérios, na sua maioria inventados por conta da superstição. É o que Daniken e a série tem demonstrado, que não é possível uma civilização antiga, sem ajuda de forças extraterrenas, terem erguido-as. Vamos analisando alguns pontos.
A construção das pirâmides botou milhares de egípcios para suar, exigiu conhecimentos avançados de matemática e muitas pedras. Das cem pirâmides conhecidas no Egito, a maior (e mais famosa ) é a de Quéops, única das sete maravilhas antigas que resiste ao tempo. Datada de 2550 a.C., ela foi orgulho e supremacia de uma geração de faraós com aspirações arquitetônicas. Khufu (ou Quéops, seu nome em grego), que encomendou a grande pirâmide, era filho de Snefru. O conhecimento passou de geração em geração, e Quéfren, filho de Quéops, e Miquerinos, o neto, completaram o trio das pirâmides de Gizé. Para botar de pé os monumentos, que nada mais eram que tumbas luxuosas para os faraós, estima-se que 30 mil egípcios trabalharam durante 20 anos, esses trabalhadores eram trocados a cada 3 meses[6]. Além destes, trabalhavam na construção médicos, arquitetos, cervejeiros, que eram pagos com comida e cerveja. Ao contrário do que afirma Daniken[7] e a série, que inclusive menosprezam os egípcios e outros povos,os construtores da pirâmides não eram escravos,e tinha um grande conhecimento de astronomia e arquitetura.[8][9]
A questão de como os blocos de construção das pirâmides eram transportados  é explicada hoje como um serviço realizado com cordas; com uma espécie de trenó de troncos de madeira cilíndricos, sobre os quais as pedras deslizavam; ou com a ajuda de tafla, um tipo de barro que, molhado, fica escorregadio e ajuda a deslizar os blocos. Depois de assentados, os blocos eram cortados em um ângulo de 51º, o que deixava a face da pirâmide lisa. Contando com a palavra geral dos arqueólogos, as pirâmides se construídas no nosso tempo, seriam feitas com igual ou maior proeza,sem ter que ter a ajuda de seres extraterrenos.[10]

SARCÓFAGO DE PALENQUE

Daniken e a série afirmam que o sarcófago de Palenque, no Templo das Inscrições representa um astronauta sentado em cima de foguete, vestindo um traje espacial. Contudo, arqueólogos não vêm nada de especial nesta figura, o monarca Maia falecido com penteados e joalharia tradicionais Maias, rodeado de símbolos Maias pode ser observado juntamente com outros desenhos Maias[11]. A mão direita não está a manipular quaisquer controles de um foguete, está porém simplesmente a fazer um gesto tradicional Maia, que outras figuras nos lados da tampa também estão a fazer, e não está a segurar seja o que for. O formato do foguete é na realidade duas serpentes que juntam as suas cabeças no fundo, as chamas do foguete são as barbas das serpentes[12].
Outro equívoco de toda a série é demonstrar figuras e imagens distorcidas. Um exemplo está na catedral dá Madonna de La Salute, na Itália, onde em uma das pinturas, dá a impressão de um OVNI(objeto voador não identificado) sobrevoando a imagem de Nossa Senhora da Salute. Daniken e toda a série mostram isso como impossível para uma imagem de tantos séculos, sem nenhuma evidência para a visita de extra terrenos. Mais aproximando a imagem, pode-se notar que o que parece um OVNI,é na verdade uma coroa de ouro rodeada por anjos.
Outra imagem que chama atenção,é de um astronauta esculpido na catedral de Salamanca na Espanha. Daniken apresenta isso como uma prova irrefutável[13]. O astronauta de fato existe, só que foi esculpido em 1993 durante a reforma da catedral feita por Jerónimo Garcia[14].[15]
Na série e também no livro O Ouro dos Deuses, Daniken escreveu que foi guiado através de tuneis artificiais em uma caverna embaixo do Equador, Cueva de Los Tayos, contendo ouro, criaturas estranhas e uma biblioteca com tabuas de metal com escrituras, que ele considerou evidencia de visitantes espaciais[16].
           O homem que ele disse que guiou ele nesses tuneis, Juan Moricz, contou ao jornal alemão Der Spiegel que as descrições do Daniken vieram de uma conversa longa e que as fotos no livro haviam sido alteradas. Von Däniken contou pra Playboy que apesar que ele havia visto a biblioteca e outros lugares que ele descreveu, ele havia inventado alguns dos eventos pra aumentar o interesse no seu livro.
Mais tarde em 1978 ele disse que nunca havia estado na caverna mostrada no livro, mas somente em uma "entrada lateral" e que ele havia inventado a descida inteira na caverna.
O geólogo Daniel R. Prado examinou a área e não achou nenhum sistema de cavernas.[17]
A série e Daniken tem sido alvo várias críticas por muitos profissionais. Carl Sagan, por exemplo:
“Aquela forma tão descuidada de escrever como a de von Däniken, cuja principal tese é de que os nossos antepassados eram bonecos, ao ser tão popular é um comentário sobre a credulidade e desespero dos nossos tempos. Mas a ideia que seres de qualquer outro lado viriam salvar-nos de nós próprios é uma doutrina muito perigosa - semelhante ao do médico charlatão cujos tratamentos impedem que o cliente procure um médico competente para o ajudar e, quem sabe, talvez curar a doença.” — Carl Sagan, no prefácio de The Space Gods Revealed[18]

Em outro artigo, exploraremos outras teorias que defendem que seres alienígenas nos visitaram no passado. Ao que tudo indica, não temos nenhum evidência convincente favorável a isso. A cada dia, temos mais indícios da grande numerosidade do nosso universo, bilhões e bilhões de galáxias, planetas, estrelas, etc. Mas a chance de termos sido visitados é muitíssimo pequena. É interessante ver a opinião de astrônomos como Carl Sagan e Neil Degrasse Tyson,de físicos como Stephen Hanking e de biólogos como Richard Dawkins. Recomenda-se ler sobre o Paradoxo de Fermi, onde o tema também é bem explorado.






[1] Chariots of the Gods? 1968,p. 85.
[2] Chariots of the Gods? 1968,p. 88.
[3] SILVERMAN & PROULX (2008),"The Mythological History of the Geoglyphs, The Nasca, Peoples of America, John Wiley & Sons, pp. 167–171;
[4] SILVERMAN & PROULX (2008), "The "Mythological History of the Geoglyphs", The Nasca, Peoples of America, John Wiley & Sons, pp. 167–171.
[5] LEWIS, (1979) Los misterios de La grand pirâmide p.152 ;
[6]  BRANGALGION JUNIOR - professor UFRJ
[7] Chariots of the Gods? 1968,pg. 124
[8] BORGES,Jorge,(2007) As descobertas dos mistérios sobre as pirâmides, p. 209
[9] BUTLER,ALAN,KINGHT,CHRISTOPHER(2009), Artes das Pirâmides-desvendando o maior mistério da arquologia, p. 110
[10]ANDREU,Guillemett(2005) Vida Quotidiana no Egipto no Tempo das Piramides. P. 39
[11] MILLER & TAUBEL, (1993) The Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya. Londres: Thames and Hudson, p. 216 
[12] FREIDEL & SCHELE (1992)  A Forest of Kings: The Untold Story of the Ancient Maya. [S.l.]: William Morrow Paperbacks, p 544.
[13] Chariots of the Gods? 1968,p. 168
[14] TOSELLI,Paolo(2001) Una escultura enigmática,p.29
[15] SILVA,Rui(1999)O astronauta da catedral de salamanca.
[16]  Ouro dos deuses: material visual e documentário sobre teorias, especulações e pesquisas (1978) p.
[17] PRADO (1996) La chegada in Cueva de Los Tayos,p. 72
[18]SAGAN, Carl (1980), livro -  pp. 11-13;

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